• Georgina Angélica

Intenção e Impacto

É verdade que também existem boas intenções nas nossas sociedades enquanto assistimos a uma crescente onda de ódio, raiva e dor, mas será que essas intenções resultam em acções com impacto? Porque ter boas intenções não altera nada, é preciso agir para que a mudança aconteça. Já se sabe que a mudança é desconfortável, penosa e demorada, mas no actual estado do Mundo, onde em pleno século XXI continua a chegar-nos relatos de mortes/assassinatos por parte de quem tem o dever de nos proteger, urge repensar como podemos mudar e eventualmente acabar com estes episódios que querendo ou não são medonhos e revoltantes. Sei que nem todos os polícias são racistas, que existem bons e maus profissionais em todas as áreas das nossas sociedades, mas também sei que existe uma doença que parece estar a tornar-se cada vez mais feroz e que se chama RACISMO. Acredito também que todos nós somos racista, fomos levados a isso, rejeitamos o que não conhecemos, julgamos com base em estereótipos e vivemos adormecidos e empobrecidos pessoalmente e espiritualmente. E qual é o antídoto para esta doença? Como diminuímos o número de casos infectados? Não sei a resposta a todas essas questões, mas sei que os casos podem ser diminuídos se criarmos espaços de diálogo e escuta activa com o propósito de encontrar soluções que comecem por impactar educadores e crianças. Os nossos educadores precisam de ferramentas de combate a esta doença, precisam saber como lidar com questões de racismo dentro dos seus espaços educativos e acima de tudo devem autodiagnosticarem-se e avaliarem em que percentagem estão infectados com essa doença. Dependendo da percentagem de infecção, decisões devem ser tomadas, quer pelo próprio quando capaz de tomar essa decisão ou por quem tenha a responsabilidade e dever de não deixar a doença propagar-se para as crianças. Sei que nenhuma criança nasce racista, mas sim torna-se pelos exemplos que a rodeiam. Todos nós fomos atingidos por este mal, crescemos a observar e ouvir os adultos a verbalizarem crenças e ideias insípidas sobre pessoas com características diferentes das nossas, é claro que também nós as dissemos e sentimos a uma determinada altura das nossas vidas. Os mídias também contribuem imensamente na propagação desta doença, quem detém o poder não o quer partilhar e dar voz a outras narrativas, não quer ouvir a perspectiva do outro e entender o sofrimento do outro. Sim, por vezes são os mídias a chamar a atenção para esta doença, mas com que factos, com que verdades? Aliás basta não ter um olhar crítico ao trabalho dos mídia para se ser atingido por este mal, também o fui numa determinada fase da minha vida. O meu querido professor de filosofia do 11 ano, já pedia para que tivéssemos cuidado com a alienação que ver televisão provocava, que era um erro que cometíamos ver televisão sem um olhar crítico, que deveríamos ler autores que promovessem o nosso questionamento, o Professor Carlos mora no coração de todos os alunos que tiveram a sorte de o conhecer. Felizmente estou cada vez mais consciente de que fui formatada pelo inconsciente colectivo a pensar e ver as pessoas de uma determinada maneira e isso não corresponde de todo à verdade, pois existem sempre causas muito profundas para que nos comportemos de determinada forma, contudo a necessidade de se começar a olhar com maior profundidade uns para os outros e fazer as seguintes perguntas é inadiável "qual é a história de vida desta pessoa? Porque motivo provoca-me estes sentimentos e sensações? O que isso diz sobre mim? Ficar em cima do muro é algo que discordo profundamente, acredito que tal acontece por falta de conhecimento ou por pura e simplesmente não se desejar sair da zona de conforto, o mais fácil é dizer que não existe racismo, pois assim não tenho que tomar uma decisão ou determinar a minha posição e envolver-me em acções com impactos significativos e transformacionais. Sem dúvida que muitos de nós tem um total desconhecimento sobre a história de África, sobre a nossa ancestralidade e sobre a sabedoria que este continente empresta ao Mundo, mas para nos empoderarmos e libertarmos das amarras que limitam as nossas vidas, temos que estudar, saber e passar esses conhecimentos às nossas crianças, para que no momento certo saibam defender-se com o poder do conhecimento adquirido e não calar perante a perplexidade da ignorância alheia. Não podemos deixar as nossas crianças e alunos caírem na armadilha de pensar que somos diferentes uns dos outros, que uns são mais importantes do que outros, que ter a pele negra significa ter menos valor, integridade, inteligência, sensibilidade e sei lá mais o quê, não há tempo a perder. Vamos reavaliar os currículos, as conversas, as ideias limitantes, o desamor, a desunião e unirmo-nos como sociedade civil para mudar o que não está bem e não é do bem. Estamos a viver uma época de mudanças profundas, algumas positivas outras nem por isso, contudo a luta contra o racismo deve estar no topo de todas as agendas de quem se diz a favor de uma humanidade assente no amor, equidade e paz. Da minha parte e sempre com esta preocupação em mente, estudo cada vez mais sobre como ser uma educadora antiracista, que ferramentas devo criar e disponibilizar aos educadores que comigo trabalham. Continuar a promover momentos de reflexão e diálogo com pessoas que detêm maior conhecimento do assunto é outra acção que estou focada. Toda a minha vida fui vítima de racismo, por vezes sem sequer ter total consciência que o estava a ser, mas a maternidade trouxe-me a noção clara que ficar em cima do muro não é opção, pois preciso proteger o meu filho, sobrinhas e crianças com quem trabalho. Das boas intenções passei a acções que espero ter o impacto desejado a médio e longo prazo. E termino com uma frase da célebre Angela Davis, "Não basta não ser racista, é preciso ser antiracista."

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